Adísia conta Adísia

Por Luiza Costa e Thalita Tavares

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Apaixonada pelo seu nome, sua profissão e as escolhas feitas ao longo de sua caminhada, Maria Adísia Barros de Sá, ou melhor, Adísia Sá, tornou-se a primeira jornalista mulher a integrar a redação de um jornal no Estado. Local este, só permitido a homens. Sendo ainda a primeira repórter policial mulher que, já na primeira matéria, virou manchete da própria reportagem. Foi assim que, uma das figuras mais importantes do jornalismo cearense e também brasileiro, surgiu para o mundo.

Cearense de Cariré e criada em pensão administrada pelos pais, Adísia cresceu na antiga “rua das redações dos jornais”, em Fortaleza. Essa proximidade com a produção dos jornais despertou na menina uma vontade de ser também uma contadora de histórias. Quando relembra sua infância, Adísia logo sorri e diz que, aquela época, era muito feliz, apesar das dificuldades. Morar perto dos principais jornais do Ceará lhe trazia boas recordações.

“Dormia embalada pela melodia das rotativas e me impregnava do perfume gostoso da tinta e da fuligem das máquinas”

Foi em casa que a também professora, escritora e filósofa nos recebeu para contar um pouco de sua trajetória. Ao entrar na sala uma enorme estante de livros já denunciava a sede por leitura que a acompanha desde menina. As obras são as mais variadas possíveis, desde literatura brasileira até livros policiais, passando por obras próprias como: “Capitu conta Capitu”, em resposta à Dom Casmurro, onde apresenta a tese que Capitu nunca foi infiel a Bentinho. Atualmente essa senhora de cabelos brancos, de fala tranquila e de ótima memória está relendo a coleção de Sherlock Holmes, um de seus personagens favoritos.

Essa prioridade pela leitura, pelo conhecimento tem na figura de sua mãe um incentivo maior, que sempre dizia: “Para comprar livros esta casa sempre terá dinheiro, mas para sapatos e roupas somente no Natal e aniversário”.

Uma mulher muito a frente do seu tempo é o que muitos atribuem a sua pessoa. Numa época em que todas as moças tinham como sonho casar, ter filhos, ter uma família tradicional, ela pensava em estudar, trabalhar e ser dona do seu próprio destino. A independência lhe atraía muito e a colocava cada vez mais distante da vida de mulher casada. Talvez essa postura transgressora, rebelde e desobediente para a época nunca tenha lhe permitido contentar-se a uma existência tão predestinada.

“Jornalista é um bicho diferente. Jornalista que é jornalista não tem preconceito…”

Dúvidas não existiram sobre qual profissão seguir e quando questionada por um padre respondeu com firmeza: “Quero ser jornalista e escritora”. Momento esse de muito desagrado para sua mãe, que não aceitou: “Pra quê ser jornalista? Só tem homem lá!”. O pai que até então nunca contrariara sua mãe, com voz firme disse: “Quer ser jornalista, minha filha?” No que prontamente respondeu: “Quero, meu pai”. E o veredito: “Então você vai ser jornalista”. E, assim, seguiu com o seu trabalho e seu compromisso em fazer da informação um instrumento de interesse público.

Mas o tempo de muitos afazeres e obrigações diárias foram cumpridas, o que lhe permite hoje praticar algumas futilidades, como passar horas e horas preenchendo palavras cruzadas.

Leia agora a entrevista com a Jornalista Adísia Sá:

Como era a presença do jornal na sua infância?

Eu nasci em Cariré e depois minha família veio pra Fortaleza. Meus pais eram donos de uma pequena pensão, a Pensão Sobral. Minha mãe era a cabeça, meu pai era só o chefe de família, mas o cabeça era mamãe, né? Então, ela veio na frente, de Cariré pra cá, escolheu o local onde botou a pensão que era vizinho aos Diários Associados e ao jornal Estado, na Senador Pompeu, que se transformou depois na rua da imprensa. Talvez essa aproximação e o fato dos hóspedes sempre deixarem jornais que a gente ia lendo… mas, a princípio, não havia aquela vontade de ser jornalista. Havia já uma vontade de escrever. Uma vez o Padre Nivaldo  me perguntou, quando eu fazia o 3º científico,  o que eu queria ser. Eu disse que queria ser jornalista e escritora. Aí, ele perguntou se eu já havia começado a escrever e eu disse que não.  Ele me deu a incumbência de escrever todo dia uma página, tivesse ou não assunto e, então, eu fiz aquilo religiosamente, de maneira que, quando eu fui para o jornal, já tinha experiência com a escrita. Antes, escrevi jornalzinho de colégio, porque quando a gente quer procura todos os caminhos. Aí eu fui. Quando eu cheguei formada em 55, a primeira coisa que eu fiz foi procurar jornal para trabalhar. Aí, entrei na Gazeta de Notícias e passei dois, três anos no máximo. Onde eu conheci Lustosa da Costa, Lúcio Brasileiro, Rogaciano Leite (pai). Então, era um grupo muito interessante, e eu era a única mulher na imprensa toda. Tinham as chamadas beletristas, que eram as que escreviam poesia, crônica, mais de redação mesmo eu fui a primeira.

E como foi ser a primeira?

Foi muito bom, eu fui muito bem recebida. Primeiro porque eu já tinha muito contato com os companheiros da Gazeta, quando eu tirava o jornal da União Estadual dos Estudantes. Então, eu já conhecia os mestres de oficina, levava o material e ali eu ficava conversando com eles, aí comecei a conhecer o pessoal da redação. Quando houve oportunidade de eu entrar, iam fazer uma seleção para um cargo de noticiarista , os operários e mestres de oficina foram falar com seu Olavo, que era o diretor, e ele disse que não haveria mais seleção, porque quem tem que ficar é a menina que a gente já conhece. A menina era eu. Então, foi muito bom.

Nunca houve um preconceito?

Pelo contrário, talvez por essa aproximação… e jornalista é um bicho diferente. Jornalista que é jornalista não tem preconceito, porque ele vive com tantas matérias diferentes… Se é uma matéria pequena, foi um buraco que se abriu na rua é tão importante quanto (que Deus nos perdoe) a queda de um prédio. Nós não temos  esse sentido de privilegiar uma matéria. Tudo aquilo que nós sabemos que é do interesse público, que o público não conhece, nós transformamos em notícia, nós temos o fato e o transformamos em notícia.  Então, o jornalista não é preconceituoso. Ele não pode ser preconceituoso, se ele é, ele não é jornalista. E hoje em dia é moda ser jornalista, tem status, tem posição, mas na hora do trabalho não tem essa não, nós somos todos iguais, né? Se você vai só pelo status, você pode se tornar um nome, mas nunca será um profissional respeitado. O público conhece  quem tá lá só pra aparecer.

A senhora também foi a primeira repórter policial. E nós lemos que em sua primeira reportagem, em que foi cobrir a greve dos policiais, foi agredida…

Foi, eu fui ameaçada. O Laranjeira prometeu que se eu publicasse aquela matéria me fazia engolir o jornal. Eu sai chorando no meio do tempo. Aí cheguei no jornal chorando, falei seu Olavo, o “home” disse que, se a matéria saísse, ele ia me fazer engolir o jornal. E seu Olavo berrou: “pois agora nós vamos dar é manchete”. Foi quando eu comecei a adquirir nome, “Jornalista da Gazeta agredida pelo inspetor Laranjeira”, foi um escândalo, né? Aí todo mundo foi procurar saber quem era.  E era eu.

Seus irmãos liam muitos livros, qual a importância deles na sua vida política?

Eu comecei a ler todos os livros dos homens. Porque eu só tinha uma irmã, mas essa sempre viveu interna em colégio, praticamente ela saiu, conheceu um rapaz que era do Acre ali namoraram e casou-se por procuração. Ela casou-se muito nova, não tinha 17 anos. E foi pro Acre sem conhecer ninguém, só o namorado. E não era isso que você tinha perguntado, mas eu precisei lembrar dela pra dar sua resposta. Quando ela viajou e papai  foi deixá-la em Belém, eu me ajoelhei lá no porto, na Praia de Iracema, e disse: “Graças a Deus essa desgraçada foi embora!” A mamãe ali mesmo me deu um cocorote, ela morrendo de chorar (risos). Aí foi que eu tive raiva dela, né?

Porque a senhora tinha tanta raiva da sua irmã?

 Porque tudo era ela! Eu não era filha, pra mamãe não. Tudo ela dizia assim, a minha filha sabe desenhar, a minha filha sabe bordar, a minha filha sabe pintar… quem era a minha filha? Era a outra. Havia uma diferença de sete anos. Quando a gente é adulto sete anos não é nada, mas quando você é uma garota e a sua irmã tem quinze anos é uma diferença enorme.

Sua mãe, então, não aprovou sua decisão de se tornar jornalista?

Minha mãe disse assim: “ Pra quê ser jornalista? Só tem homem lá!” E meu pai era muito calado, só dizia sim senhora. Aí foi quando ele falou: “A minha filha é filha de homem, e o que ela mais vê aqui na pensão são homens. Quer ser jornalista, minha filha?” “Quero, meu pai”. “Então você vai ser jornalista”. E aí, pela primeira vez, minha mãe disse sim senhor, né? (risos).

Mas depois ela gostou?

Ah!… mais ficou de uma vaidade muito grande! Ficou, porque depois desse negócio do escândalo, eu comecei a ter nome. E, assinando matérias, comecei a assinar na Gazeta como Moema, porque Olavo não queria dar prestígio para ninguém, mas, com o tempo, assinei com meu nome mesmo. O começo da vida da gente é engraçado. Depois teve um dia que ele (Olavo) tava pra fechar o jornal e me chamou no gabinete dele e me pediu perdão. “Olha menina, eu quero lhe pedir perdão. Porque quando você entrou aqui eu lhe persegui bastante, porque eu achava que você queria só aparecer como as outras, que queriam ser jornalistas mas só pra ser escritora. Mas você é jornalista mesmo, né?” É. Eu sou jornalista mesmo. Eu nasci pra isso.

E a Senhora disse em outra entrevista que sua mãe disponibilizava dinheiro pra comprar livros, fosse o livro que fosse. Pra comprar roupas e coisas supérfluas não…?

Os meus irmãos tinham uma boa biblioteca. Agora dinheiro para sapato e roupa, só no Natal e no aniversário. Eu morava na minha casa na Senador Pompeu e, depois, me mudei para a Nunes Valente e eu tinha uma biblioteca muito grande. Uma senhora biblioteca! Aí, quando me mudei pro apartamento, eu doei muitos livros, eu digo a vocês que só pra Academia de Polícia Militar, onde eu lecionei, eu doei mais de 300 livros policiais. Ainda hoje sou alucinada por literatura policial, vai olhar agora que Sherlock Holmes tá aberto.

A senhora relê os livros?

Releio. Policial, por exemplo. Eu já tinha lido Sherlock Holmes há muito tempo, aí quando saiu a coleção completa, eu enlouqueci. Então, eu já estou, parece, que no sexto volume… com pena de acabar.

A senhora gosta mais de que? Policial ou falar mesmo de política?

Eu gosto muito de policial, mas a gente não pode deixar de ler tudo. Tenho muitos bons livros de literatura brasileira, mas não tenho muita paciência. Já li há muito tempo, não gosto de reler.

Já que estamos falando de livros. Eu queria saber se seu livro “Capitu conta Capitu” tem alguma influência no seu pensamento feminista…

Não, porque eu sempre considerei Machado um machista. Os personagens femininos de Machado são muito decorativos, mas a Capitu tinha uma presença. Ela casada, recém-casada, recebeu em casa um homem, e aquilo era um escândalo. A partir dali, eu achei que ela tinha uma linha de independência, aí fiz toda aquela fantasia. Hoje, por coincidência, eu estava ouvindo rádio cinco horas da manhã e pensei: está na época de eu fazer mais um livro, ganhar dinheiro. Porque eu vendo meus livros todos. Aliás, eu não vendo, eu passo entre os amigos. Dificilmente você encontra livro meu nas livrarias. Só se a editora mandar.

A senhora acha que no livro de Machado de Assis, Capitu traiu?

Não traiu. A minha tese é que ela não traiu. Quando a gente ama não trai, se eu não lhe amo e vivo com você e tenho outro eu não lhe trai eu simplesmente não lhe amo. Você só trai quando você não ama a pessoa.

E a senhora já amou do jeito que acabou de dizer pra gente?

Da mesma forma em que eu termino um livro, os meus personagens não interferem na minha vida particular. Falem dos personagens e não da vida particular. (risos) Porque cada um ama a sua maneira, ninguém pode julgar.  Ah! Porque você ama azul, ama vermelho, gosta do preto, e eu gosto é do amarelo, isso não se discute. Há paladar para tudo. (risos)

Mudando um pouco de assunto. Ouvimos em uma entrevista que a senhora gostava do seu nome… Porque?

 O nome em si eu gosto porque é pequenininho, eu gosto do nome que hoje tenho. Eu passo muitas vezes despercebida. Outro dia eu estava no supermercado onde eu normalmente faço minhas compras e o rapazinho estava me atendendo com uma certa displicência , eu não ligo. Mas nisso lá se vem o dono, né? “Professora Adísia, a senhora aqui!” e fez toda aquela festa e o pessoal ficou todo se balançando. Nunca tinham carregado minha sacola e nesse dia recolheram.

 O que Adísia faz nas horas vagas?

Leio. Eu gosto muito de ler. Agora mesmo eu fui comprar minhas revistas que eu gosto muito: de criptograma, de palavras cruzadas e tinha uma revista só sobre a Hebe, comprei a revista. Quer dizer, eu gosto de estar por dentro das coisas. Hoje eu posso me dar ao luxo de gastar dinheiro com essas futilidades, né?

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