O Grande Amador

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Por Jefferson Passos e Celso Nóbrega

Uma voz rouca pergunta quem está do outro lado da porta. Defronte ao apartamento 1002 e 1 hora de atraso, aquela entonação era mais do que plausível. Os dois repórteres resolvem se identificar. A porta enfim range a dobradiça até o fim, os olhos fitam a sala profusamente mobiliada. Sem pisar na varanda vê-se boa parte do bairro Cocó, as matas regurgitando de prédios, empreendimentos por fazer e o rio famoso coberto de folhagem.

Seu Osvaldo, filho do veterano dos gramados, pede que esperem o entrevistado na sala, “vou chamar o papai, mas fiquem a vontade pra ir na varanda”.Ouve-se um passo vagaroso saindo do quarto aos fundos, morre na sala, junta-se aos repórteres. O pedaço de história para entre dois móveis, pousa um olhar arisco, a sobrancelha em pé. Resolve estender uma mão ossuda e apertam-na em cumprimento. Os sorrisos largos e satisfeitos desarmam o velho, a retribuir o gesto. Postados naquela sala, ambos o reconhecem: José Cândido Silveira Fontenele, o Zé Cândido dos gramados, atleta mais velho, ainda vivo, a ter pisado no Estádio Municipal Presidente Getúlio Vargas, o revigorado PV. “Os outros já morreram. Restou só eu mesmo”, caçoa do tempo.

Aos poucos se sente mais a vontade, com jeito de anfitrião, suspende o braço e convida-os a se acomodar no sofá. Afundam relaxados. Seu Zé Cândido prefere a cadeira antiga de madeira envernizada, mal acolchoada. “É tão velha quanto eu”, brinca. Mas duvida os rapazes ter o assento mais que seus 90 anos, embora conserve boa aparência assim como o velho guarda a lucidez.

Presos a vida do entrevistado, descobrem que conversar com Zé Cândido é entrar no túnel do tempo de uma Fortaleza amadora. De seus avós, possivelmente. Quando desembarcara ainda muito menino em Fortaleza, escorregado da Serra da Ibiapaba, do município de Viçosa do Ceará, conhecera através do tio Chico Ponte, fanático apostador de corridas de cavalo, o futebol amador que lhe traria reconhecimento e fama, entre as décadas de 1930 até 1950.

O prestígio de Zé Cândido conviveu nas manchetes dos jornais da época, e através dos quais ainda resgata a sua vida para qualquer um, devido a dúzia de portfólios bem organizados com notícias que, reunidas, contam a trajetória dele no futebol. Páginas amareladas, fotos escuras e textos pomposos. Tudo tem Zé Cândido.

No decorrer da entrevista, o mesmo senhor orgulhoso da placa recebida em homenagem aos anos dedicados ao futebol, na ocasião da reabertura do PV em maio de 2011, hoje repousada na estante da sala, não se limitou a recordar apenas histórias do futebol amador. Além da placa, seus pés e mãos eternizaram-se na Calçada da Fama do PV.

Nos bastidores e na conversa com os repórteres, Zé Cândido se emocionou com aquela Fortaleza lenta e bucólica do seu tempo, dos carros imensos, avenidas largas, passeios repletos de grupos de meninas, das tertúlias, as passagens pelo exército, a guerra contra a Alemanha de Hitler, o comportamento dos contemporâneos diante do esporte amador em comparação as torcidas organizadas de então, em tempos profissionais; e, sobretudo, as camisas por que jogou e os campos por que atuou.

Conta histórias deliciosas. Como quando foi presidente, treinador e jogador, ao mesmo tempo, do Gentilândia, time que por mais tempo atuou. “Nunca ficava no banco, me escalava sempre (risos)”. Além dos causos de sua trajetória, de 1936 a 1950, ano da aposentadoria dos gramados, após vestir as camisas do Fortaleza (categoria de base), Ginásio São João, Maguari, Peñarol, Ceará, América, Fortaleza e Gentilândia.

Dois times lhe marcaram a carreira: Fortaleza e Gentilândia, o saudoso esquadrão extinto. Mas somente um lhe arrebata o coração até hoje e para sempre: “meu Fortaleza, meu Tricolor de Aço”. A família Fontenele, a bem da verdade, herdou a mesma paixão. Sua irmã, a famosa Tia Marisinha, “mascote” do Fortaleza, com os mesmos 95 anos do tricolor; Airton Fontenele, primo, pesquisador do esporte cearense e ilustre torcedor do Leão; o filho Osvaldo Fontenele, ex-dirigente do Fortaleza e fundador da primeira torcida organizada da capital.

Mudanças do futebol amador à era profissional, feitos históricos, craques do futebol cearense da época, os orgulhos da carreira e as decepções. Abaixo, entrevista com o polivalente dos gramados, goleador Zé Cândido.

 Seu Zé Cândido, como o futebol entrou na sua vida? O senhor pensava em ser jogador de futebol quando pequeno?

O futebol entrou na minha vida desde criança. Quando morávamos em Viçosa (do Ceará), nós tínhamos um piano em casa, que era da minha tia. Como ela morava em Fortaleza, no colégio interno Imaculada Conceição, subia a serra só nos finais de semana. E meu pai queria que eu aprendesse a tocar à força. Mas o que eu queria era jogar bola (risos)… Eu fugia de casa desde criança com a meninada, para estar nas ruas. Nesse tempo não existia lugar próprio para a prática, a não ser as praças. Fugia da aula de piano para praticar futebol.

Já em Fortaleza o senhor conhece, finalmente, o futebol amador…

Quando eu cheguei aqui em Fortaleza meu pai me colocou no colégio Ateneu São José, que depois se chamaria Colégio São José. Ele ficava ali defronte o Parque da Liberdade. Lá eu comecei a treinar futebol. Havia um campinho pequeno em frente ao Passeio Público…. Posteriormente, como morava na Praça do Carmo, fiz amizade com vários garotos que gostavam de futebol – Capotinho, Pintado, Dudu, Tulí. Começamos a jogar no patamar da Igreja do Carmo (antigamente a imagem de Nossa Senhora não era ali no patamar como é hoje, não). Depois passamos a jogar na Praça da Bandeira, vizinho onde está hoje a Faculdade de Direito da UFC. Nós, então, resolvemos montar um time. Ele recebeu o nome de Oriente do Nordeste, e a minha tia, irmã da minha mãe, desenhou nas camisas as palavras “O” e “N”. Esse time, por sua vez, não tinha jogado contra ninguém, mas um dia, um de nossos amigos conseguiu levar o time para jogar na Gentilândia (nunca tinha nem ido nessa tal Gentilândia).

Conheci o Murilo Parente, Raul Araújo, Walter Araújo, Mosquito, Pijuca, Seal (todos jogadores amadores de fama, na época).  Perdemos para esse time de 8 a 1, aí quando chego em casa as duas horas da tarde… Eu morava na rua Senador Pompeu, entre a avenida Duque de Caxias e a  rua Clarinda de Queiroz, meu pai já tinha ido na Assistência Social e na Polícia, atrás de mim. Não sabia onde eu estava e nem sinal de vida na hora do almoço. Aí além de apanhar de 8 a 1 ainda levei uma surra do papai (risos).

O senhor se lembra da primeira escalação de um time em que o senhor participou, nesses jogos de várzea?

Não me lembro. Mas depois que entramos no Ginásio São João, em 1934, fiz amizade com novas pessoas que gostavam de futebol. Um deles era Oscar Magno Carvalho, que jogava no juvenil do Fortaleza, cuja sede era próximo a Praça da Bandeira. O campo ficava ali entre a rua General Sampaio e a rua Tristão Gonçalves. A convite do Magno fui para o infantil do Fortaleza, onde em 1936 participei do primeiro campeonato oficial organizado pela Associação Desportiva Cearense (ADC), hoje Federação Cearense de Futebol (FCF).

Eu percebo que o senhor tem muitos recortes de jornais das décadas de 1930, 1940 e 1950. Qual a importância da imprensa…

A imprensa era muito pequena. Havia o Miguel Floriano Sales, do Jornal Unitário, depois Blanchard Girão; Zé Barreto, da Gazeta de Notícias… Mas não havia muitas notícias, nem televisão, nem rádio. Era muito pouco divulgado o futebol. Entre as minhas amizades conheci esses três cronistas.

Hoje o futebol move cifras incalculáveis. Mas naquela época, como se dava essa questão financeira, quando se trocava de um clube para o outro?

(risos) Ninguém ganhava nada! Muito pelo contrário, a gente tinha que comprar chuteira. E isso desde criança, pelo infantil. Aliás, o campeonato infantil de 1937 foi ganho pelo Fortaleza (e eu ainda tenho a escalação desse time na cabeça: Farinha D’Água; Sófordi, Pirulito II, Rolinha e Vinte e Oito; Nenéu II, Gargarú, Diefei, Zé Cândido, que sou eu; Pedrinho, Válder Luís e Hélio Parente)…

A seu ver, a profissionalização trouxe algum tipo de mal ao jogo de futebol?                  

Hoje em dia se perde três ou quatro jogos, mandam logo o técnico embora. Tá errado! Outra coisa era que aqui no meu tempo quando se ganhava, você rachava um “bicho”. Não existia ordenado para jogador, como hoje. Lembro que ao passar para o segundo quadro não tínhamos o time bancando nada, sequer nossas chuteiras. Sabíamos o valor da vitória e da derrota. Era por amor. Contratar jogador de fora? Muito raro.

 

Em 1938, Capitão Juremí Pires de Castro, um gaúcho, assumiu a presidência da Associação Desportiva Cearense. Capitão do Exército e diretor do Colégio Ginásio São João, o mesmo em que eu estudava. Esse homem impulsionou o futebol daqui, trazendo vários times de fora. O Bahia, por exemplo, veio aqui. O Palestra Itália [ atual Palmeiras] também, em 1938…

O senhor tem uma história curiosa enquanto esteve no Gentilândia, clube por onde mais atuou.

Pois não. Foi no Gentilândia que marquei história no futebol cearense, até hoje. Em 1950, fui ao mesmo tempo, presidente, treinador e jogador (risos). Fiquei muito conhecido por isso (risos). Nunca ficava no banco, me escalava sempre (risos).

Desses tempos, o senhor pode citar mais curiosidades engraçadas, além de sua passagem pelo Gentilândia?

Uma vez a delegação do Gentilândia foi a Sobral, mas antes paramos em Itapajé para almoçar. Estávamos sentados à mesa e um jogador nosso, o Barbosão, pegou a toalha da mesa e limpou a boca. A senhora que estava servindo a gente viu aquilo e disse: ‘O falta de educação’. E o Barbosão respondeu: ‘Falta de educação, não. Falta é de guardanapo’. (risos)  Outro fato interessante

E quais foram as amizades mais marcantes no futebol?

A primeira amizade mais marcante foi com Raimundo de Paula Filho, o Raimundinho, tio do então cronista Tom Barros. Ele era o técnico do Peñarol, em 1940 e 1941. Eu o apresentei a uma moça rica. Lembro que lhe disse: ‘Raimundinho, vou arranjar uma mulher pra você, pra pagar suas contas’. Ele concordou, mas não deu certo com a que eu gostaria de tê-lo apresentado. Ele acabou casado com a amiga dessa moça (risos).

Além de Raimundinho, algum jogador?

Hildebrando Maia, grande craque cearense de todos os tempos e o melhor batedor de pênalti do Estado do Ceará. Pelos anos de 1931 e 1932 tinha sido contratado pelo São Cristóvão, do Rio de Janeiro.

O senhor pode fazer um apanhado de acontecimentos em sua carreira, pelos times onde atuou?

Foram oito times. Comecei nas categorias de base do Fortaleza, depois fiquei no Ginásio São João até me formar (por que o Ginásio resolveu se federar na ADC). Eu me formei e fui para o Maguari, lá joguei num timaço. Alcir; Sirino, Gambetá, Tancredo e Aripe; Valter, Mamede, Jandir e Luizinho; Matuca e Bacurím. Grande time. Aí fui para o Peñarol, e comigo houve uma coisa interessante. O Peñarol, clube que ficava vizinho a Igreja de São Gerardo, era dirigido pelo técnico Dr. Ribeiro.  Esse senhor se desentendeu com a diretoria do Peñarol e mudou-se para o Ferroviário, levando consigo os melhores jogadores do Peñarol (Capotinho, Zé Sérgio, Marcos, Chaguinhas, Jombrega, Marreco, e outros mais).

O Peñarol ficou quase sem time para jogar. Em contrapartida, o Raimundinho, presidente, conseguiu trazer cinco jogadores do 2º quadro do Maguari para formar o elenco de 1940, entre esses jogadores estava eu, e assim ingressei no Peñarol. Em 1942 recebi um convite para jogar no Ceará. Nesse tempo as transações já valiam dinheiro, e o presidente de lá era um despachante, Dr. Antônio Tibúrcio da Frota, ele acordou que me daria 1 conto de réis de luva, e 200 merréis por mês. Dava 500 merréis na hora, e mais 500 com trinta dias.

Eu era muito magro, franzino, tinha 1,67 metros e pesava 49 quilos. Encontrei um técnico de ponta, Jaime Guimarães, contratado para ser o treinador do ano no futebol cearense, e um dos treinos era carregar um companheiro nas costas… Andar 100 metros com um jogador nas costas. Eu não aguentava! (risos) Nessa época, o Raimundinho passou a ser técnico do Peñarol, e me chamou de volta prometendo que iria fazer um grande plantel, com jogadores da Seleção Cearense. O que o Ceará me deu, eles bancavam e ficaria tudo bem. Passei 1 mês no Ceará (risos) Voltando ao Peñarol, fizemos um time bom, ganhamos várias partidas… Até que o América apareceu. O presidente Dr. Ubirajara tinha muita sede de me ver no América, pois antes do Peñarol, em 1940, já era para eu ter ido jogar lá, se não fosse a amizade que eu tinha com o Raimundinho. Em meu primeiro jogo, o América perdeu de 4 a 2 para o Fortaleza, e eu fiz os dois gols de consolação. Depois fui para o Fortaleza, foi quando fiz o jogo mais importante da minha vida…

Essa era outra pergunta. Qual foi o jogo mais importante da sua vida?

Bem, o time da Seleção Cearense ía enfrentar a Seleção Maranhense. Como jogos de preparação, a seleção havia enfrentado o Ferroviário e a partida terminou 8 a 1 para o selecionado, contra o Ceará venceu de 5 a 1, mas no 24º aniversário do Fortaleza, a seleção nos enfrentou e perdeu de 2 a 0, gols de Estênio. No outro domingo houve a revanche e saiu 2 a 2, para provar que o time não era fraco.

Continuando, e depois do Fortaleza?

Fiquei no Fortaleza até 1943, quando fui convocado para o Exército e estava certo de que ía para Recife. Já treinava para servir nas trincheiras da Europa e lutar contra a Alemanha de Hitler. Naquele tempo, uma pessoa normal e sadia tinha que ir, mas foi também quando descobri, depois de um treino, que tinha uma doença e não pude servir. Adoeci, fui julgado incapaz e não viajei a Recife. Parei de jogar futebol. Quase três anos depois, em 1946, enquanto tomava café na Praça do Ferreira, num Café conhecido por ali, entre as ruas Guilherme Rocha e Floriano Peixoto, encontro meu amigo Armando Pinheiro, com quem joguei no Ginásio São João, Maguari e Peñarol. Ele disse: ‘Rapaz, vamos assistir o treino do Gentilândia, ali no quartel do 23 BC, na avenida 13 de Maio. Tem o Artur Fontoura, Ossian, Zé Mário, Mamede’. Eu pensei: ‘Eu lá quero alguma coisa a mais com futebol! Já chega!’. Mas eu tinha uma caminhonete e fui bater lá. Quando cheguei o time já estava treinando e o técnico Jandir Machado, irmão do Juraci Machado, chamou: “vamos treinar, vamos”. Daí eu disse: “rapaz, eu não estou nem com chuteira, nem nada. Vim foi tomar café”. Ele me arranjou um uniforme e fui treinar. Depois o técnico me disse que fui o melhor jogador do treino, e me convidou para jogar no Gentilândia, que ia viajar naquela semana para uma partida em Limoeiro do Norte. Eu aceitei, retomei a vida de jogador em 1946. Fico até 1950 no Gentilândia, e termino minha vida no futebol com 28 anos, quando eu me casei.

 E quando passa a ser técnico do Gentilândia?

Em 1950, quando fui eleito presidente também (risos), e ainda jogava no amador mesmo o time estando na Primeira Divisão, ou seja, campeonatos a parte, nada profissional. Técnico, presidente e jogador!

Quais as características principais no futebol do Zé Cândido?

O chute, em primeiro lugar, pois eu aprendi desde criança no Fortaleza infantil. Lá o técnico, atrás do gol, nos fazia treinar chutes de todo jeito. Chutava muito bem. Cabecear também, eu cabeceava bem. Driblava na velocidade, por ser leve e rápido.

 O senhor se lembra quantos gols fez na carreira?

Não me lembro, não (risos). Era um centro-avante de área, sabe… nem sei se cheguei a ser um dos artilheiros nas décadas de 1930 e 1940.

Qual o gol mais importante que já marcou?

Foi em 1940, 1 mês depois de uma vitória histórica do Peñarol contra o Ferroviário (4 x 3, contra o melhor time cearense da época), que eu considero a maior zebra do futebol cearense, do século passado (XX). Chegou aqui um general que iria comandar a região na época da guerra (Segunda Guerra Mundial), e resolveram fazer uma partida a noite em homenagem a ele. Aliás, foi um torneio. E caiu de novo um jogo entre Ferroviário e Peñarol. Nessa ocasião fiz um gol muito importante para mim, e também o mais bonito da minha vida, porém quase não o vi (risos). Foi um gol lindíssimo. Do lado esquerdo, o Mario Dias dá uma puxada e corta o zagueiro, vai até a linha de fundo e cruza para fora da área. Eu estava no semi-círculo. O zagueiro esperava que eu matasse a bola, para avançar em cima de mim. Aí eu resolvi emendar a bola no ar, de voleio, com a canhota. Quando estou caindo no chão ouço das arquibancadas um grito de “gooooollllll”. Eu me viro rapidamente e vejo a bola morrendo lá no ângulo, e quase não via (risos). No dia seguinte o jornal disse que “o único gol do Peñarol foi feito espetacularmente por Zé Cândido, com um tiro inesperado e indefensável”. Foi o maior gol que fiz na minha vida e eu quase ‘num’ via (risos). Em 1948, pelo amador do Gentilândia, cheguei a ser artilheiro do campeonato cearense com 18 gols.

E qual foi a maior tristeza do senhor, no futebol?

A minha maior tristeza foi perder um pênalti (os olhos vermelhos, emocionado). No aniversário do Peñarol, lá no Alagadiço, houve um jogo contra o Maguari. E o Peñarol nunca chegou a “dar” no Maguari… Existia essa despeita muito grande, pois ambos eram clubes de sociedade, onde havia festa, sinuca… Nem Fortaleza, nem Ferroviário, nem Ceará, nunca tiveram sede social. Então o Maguari foi jogar lá, numa manhã de domingo, em nossas dependências. O jogo estava 2 x 2, e teve um pênalti a favor do Peñarol. O goleiro Osíris, que andou jogando até no Náutico de Recife, vinha com uma mania de pular todo para um lado. Essa invenção no futebol cearense começou depois que o Osíris voltou pra cá. Aí eu perdi o pênalti, ele caiu no lugar onde eu chutei a bola. Foi a grande tristeza que eu tive. Perdi o pênalti que talvez nos desse a primeira vitória da história do Peñarol, em cima do Maguari.

 Seu Zé Cândido, o que o Fortaleza significa na sua vida?

O Fortaleza significa pra mim… É o time que eu quero “mais bem”, sabe. Desde criança comecei a gostar, a gente jogava bola no infantil, no aspirante e cheguei a jogar no primeiro quadro. Cheguei a ser diretor do Fortaleza! E não foi só uma vez! Fortaleza é um time muito querido. Eu nunca me esqueço do tempo em que estive lá. Do Mozart, grandes amizade que fiz por lá. Outros amigos: Jaburu, Corado, Durrú, Aníbal, Fred, Carinha e João César, que eram irmãos. João césar, inclusive, um dos fundadores do Colégio Farias Brito.

Outros membros da família Fontenele também seguiram uma trajetória no futebol, muito próximos ao Fortaleza. Queria que o senhor falasse disso.

Minha irmã, a Marisa (Tia Marisinha), “mascote” do Fortaleza. Tem a mesma idade do time: 95 anos. (risos) meus filhos querem um bem danado ao “Tricolor de Aço”. O Osvaldo foi diretor de lá, presidente da Garra Tricolor, na época em que só existia ela como torcida organizada e tinha a mesma força que a TUF (nome da principal torcida organizada do Fortaleza) tem hoje. Meus netos tentam resgatar uma antiga torcida, a “Fiel Tricolor”, que apóia o time, mas não como a TUF. É algo mais civilizado e tradicional.

E quanto à placa que o senhor recebeu em 2011, na reinauguração do PV? Gostaria que falasse sobre a sua emoção.

Eu achei que foi muita bondade, porque jogadores de nível muito superior ao meu teve vários, só não estão vivos. Além disso, ainda pus meus pés na Calçada da Fama do PV. Imagina! (risos) Eu fui um bom jogador, tive a sorte de participar de campeonatos cearenses da Primeira Divisão, por vários anos. Achei que eles foram muito bondosos e atenciosos em me conceder uma homenagem dessas.

Qual a diferença do futebol de hoje para o futebol da sua época?

A diferença é primeiro no amor. O jogador não tem o bem pelo clube como tinha antigamente. O jogador que era Ceará, era Ceará pelo resto da vida. Aconteceu comigo um problema interessante: a primeira vez que fui ao Campo do Prado, onde se jogava futebol e havia também corrida de cavalo, e que hoje é o IFCE, fui com o tio Ponte. Ele me disse: “eu vou ver as corridas e você vai assistir as partidas de futebol”.

Como o senhor percebe a presença das famílias hoje nos estádios, em face do que se tinha no seu tempo?

É muito simples, vou já te explicar: no “Prado velho”, só havia um banheiro grande, com várias cabines para tomar banho. Nós tomávamos banho depois do jogo, com os jogadores do outro time. A torcida podia passar por ali também. Às vezes me banhava ao lado do zagueiro que me marcou o jogo todinho. Existia muita paz nos jogos de futebol. Não existia separação de torcida. Hoje existe e isso é o maior perigo do mundo. Eu quase não vou a jogo, e quando vou não uso camisa do Fortaleza, com medo de sofrer alguma agressão. Não existe comparação, torcidas do meu tempo chegavam juntas no estádio.

O senhor não enriqueceu com o futebol, então o que fez longe dos gramados?

Trabalhei muito. Na Casa Silcar por quase 40 anos, trabalhei também na Cequip, uma firma de tratores, cerca de oito anos. Passei minha vida trabalhando, nunca a custa de futebol. Pelo contrário, quando era presidente do Gentilândia empreguei vários jogadores na Silcar. Tentei fazer o bem a esses rapazes, ensinando um ofício para eles.

Qual a importância do futebol na sua vida?

Pra mim… Não passo um dia sem ver um jogo de futebol na televisão, nem que sejam partidas de equipes do exterior. Tenho ido pouco ao estádio devido a essa situação violenta em que se encontra a população. O futebol pra mim é tudo. Guardo os recortes das matérias de futebol do meu tempo, com todo carinho. Quando chega um amigo eu mostro, eles ficam admirados.

Nos dias de hoje, qual jogador se assemelha mais com o seu futebol?

… Nem sei os nomes dos jogadores de hoje, meu filho.

Qual o melhor gramado que o senhor já jogou?

Estádio dos Aflitos, em Pernambuco. O estádio do Náutico.

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