O que Tom Barros tem a nos ensinar

Tom Barros, durante entrevista para o documentário sobre os 70 anos do Estádio Presidente Vargas

Tom Barros, durante entrevista para o documentário sobre os 70 anos do Estádio Presidente Vargas Foto: Agência Diário

Por André Ítalo Rocha e Rebeca Marinho

Há quem diga que esse negócio de jornalismo multimídia é vocação da geração atual de jornalistas, e das outras que virão. Mal sabem essas más línguas que, aqui no Ceará, um senhor de 65 anos dá aula de versatilidade na hora de informar. Com quase meio século de profissão, Francisco Antônio de Paula Barros, o famoso Tom Barros, é comentarista de futebol do programa Paulo Oliveira, na Rádio Verdes Mares; apresentador do programa Debate Bola, da TV Diário; colunista do Diário do Nordeste; e ainda faz análises da rodada na WebTV do mesmo jornal, a TVDN.

E engana-se ainda quem pensa que todo esse jogo de cintura começou há poucos anos. No rádio, ele começou em 1965, aos 16 anos, a convite de um vizinho, o também radialista Jubemar Aguiar, que viu nas suas imitações de locutor esportivo o talento para o microfone. “Ele era da Rádio Dragão do Mar e me levou para fazer testes na Uirapuru. Eu acabei passando em dois, para participar do programa Tarde Esportiva, que era transmitido todo domingo. Conforme prometeram, assim que surgiu uma vaga, uns três meses depois, eles me efetivaram, e aí eu comecei pra valer”, conta. Lá ele ganhou o apelido, resultado do mesmo fenômeno que atingiu vários artistas e radialistas da época: o tal do “nome feio”. “Eles me disseram que meu nome não era bom para o rádio. Eu tinha que arrumar um nome novo. Aí me deram uma lista com várias opções. Eu não gostei de nenhum e disse que não queria mudar. Daí veio o Júlio Sales e sugeriu ‘Tom’, já que na época tava na moda, por causa do Tom Jobim. Aí ficou. Eu não tive o que fazer e acabei aceitando, não queria perder o emprego por causa disso. Acabei até gostando depois, porque parece um pouco com meu segundo nome”, diz

Em 1971, já como Tom Barros, foi convidado para apresentar telejornais e programas de esporte da TV Ceará, a primeira emissora de televisão cearense, onde ficou até que a mesma fechasse, na primeira metade dos anos 1980. Depois disso, seguiu para a TV Verdes Mares, onde atuou como comentarista do telejornal matinal Bom Dia Ceará e apresentou durante 18 anos o semanal Nordeste Rural. Pela emissora, teve a oportunidade de cobrir, como narrador, as Copas do Mundo de 1990, na Itália; de 1994, nos Estados Unidos; de 1998, na França; e de 2006, na Alemanha, esta última a que mais o impressionou, pela excelente organização do evento.

Em 1991, assumiu a coluna diária de futebol do Diário do Nordeste, antes ocupada por Alan Neto. “A princípio, eu deveria passar somente seis meses escrevendo, pois não sabia se dava para conciliar todas as minhas atividades na época. Mas aí eu fui conseguindo administrar e estou aí até hoje”, lembra o jornalista, que diariamente, com sua coluna, tem lugar fixo na lista das 10 páginas mais acessadas do site do jornal, privilégio ainda não alcançado por nenhum outro colunista. Em 2005, ocupou o lugar de Paulo César Norões como apresentador do programa dominical de esportes mais famoso da televisão cearense, o Debate Bola, da TV Diário, emissora que ajudou a fundar, no fim dos anos 1990.

E então, quem era mesmo que dizia que jornalismo multimídia é coisa dos mais novos? Tom Barros está aí para desafiá-lo.

Tom Barros em fotos

Vida pessoal

Fortalezense do tradicional bairro Gentilândia, Tom Barros nasceu no dia 2 de abril de 1947. “Inclusive moro hoje na mesma casa em que me criei”, orgulha-se o jornalista, que vez ou outra gosta de citar o seu bairro em programas de rádio e TV. O apego aos pais nunca deixou Tom se afastar de casa. E é nesta mesma casa, onde ele viveu por toda a vida, que hoje cria seus três filhos mais novos (no total são seis), os trigêmeos Gabriel, Pedro e Maria Clara, de 10 anos, frutos do seu terceiro casamento, com Elisabete Josué. Com tanto trabalho e uma família tão grande, parece ser difícil conciliar tudo, mas Tom Barros tira de letra. Ele faz questão de estar sempre presente e garante que todos da família se dão bem – inclusive as ex-esposas. “Ele tem o habito de sempre passar na casa dos filhos, ou tem que pelo menos falar com eles. A rotina do Antonio chega a ser engraçada. Mesmo estando atarefado no trabalho, ele primeiro passa aqui em casa, depois vai ver o um filho, em seguida outro, depois vai ao trabalho, depois passa para ver o neto, e por ai vai. Ele é muito família, sempre foi”, afirma sua irmã, Nasaré Barros, que é carinhosamente chamada de “maninha” por Tom Barros, desde que eles eram crianças até hoje. Ela também garante que ele nunca esquece os aniversários, nem as datas que marcaram a história da família, e nunca deixa de presentear seus entes queridos.

Mas além do trabalho e da família, outro item que Tom Barros consegue conciliar muito bem é a fama. Depois de tantos anos de profissão, estando diariamente presente na vida de milhares de cearenses, é quase impossível sair na rua sem ser reconhecido. Porém, apesar disso, o jornalista nunca deixou o sucesso subir a cabeça. Ao contrario: se mantém humilde, com seus pés no chão, e demonstra ser muito paciente e solicito com todos que o abordam. “O Antonio nunca deixa de dar atenção às pessoas, principalmente aos que já são idosos. Ele é muito paciente. Lembro muito bem dele, ainda novo, sentando nos bancos de uma pracinha na Gentilândia, escutando as histórias dos mais velhos, conversando com todo mundo. Por isso também ele sempre foi muito querido”, conta Nasaré.

Um dos traços mais marcantes da personalidade de Tom Barros é a sua religiosidade. Tanto ele quanto sua irmã, Nasaré, puxaram essa característica dos pais, que os criaram de uma forma bem tradicional, seguindo as normas e rituais da igreja católica. Por principal influencia da mãe, a família tinha o habito de rezar o terço todos os dias. Tom Barros chegou a ser coroinha na infância, e também se orgulha de dizer que estudou em uma “escola de padres”. Agora, Tom tenta fazer com seus filhos o mesmo que os pais fizeram com ele e sua irmã. E ele leva essa missão a sério. Nasaré contou da vez em que Tom levou os trigêmeos para uma missa dominical em uma igreja no Mucuripe, e os três fizeram muita bagunça. Ao chegar em casa, o pai das crianças ordenou “Essa não é a forma correta de se comportar em uma missa. Podem trocar de roupa os três que nós vamos para outra missa, e dessa vez é se comportem, se não iremos para outra depois, até vocês agirem bem!”. E assim aconteceu. Apesar dos risos de Nasaré ao contar a historia, a irmã apoia a atitude do irmão. “Ele está, desde cedo, ensinando seus filhos a valorizarem a vida cristã”, aprova.

Tom Barros também é detentor de duas paixões: a música e a aviação. Ambas o jornalista carrega no peito desde a juventude. Apesar da timidez, Tom gosta muito de cantar, e, segundo Nasaré, é sempre elogiado pela sua voz. Inclusive, ele chegou a participar de concursos de calouros na radio, um pouco antes de estrear como jornalista. Já a paixão pela aviação veio antes disso. Quando criança, Tom Barros ficava em frente de sua casa, olhando para o céu, esperando os aviões passarem, e sempre que via um, corria da entrada até o quintal da casa, acompanhando o trajeto do avião que passava. Tom chegou a pensar em se tornar piloto profissional da Força Aérea Brasileira (FAB). A carreira não vingou, mas a paixão permaneceu. Desde 1996 ele é piloto esportivo e é membro honorário da FAB. E foi através da aviação que o jornalista fez um de seus melhores amigos, o aviador cearense Ari Josino. “Nós nos conhecemos no Aeroclube de Fortaleza, em 1998. Eu fiquei sabendo que ele gostava muito de voar e ofereci meu ultraleve para que ele pilotasse. Hoje o meu ultraleve é como se fosse dele”, conta Josino, que já viajou com Tom Barros, à bordo do seu ultraleve, a diversas cidades do Brasil. No dia seguinte à entrevista, o último dia 25 de novembro, os dois viajaram juntos, pela primeira vez, para a Europa, mas não para pilotar, somente a passeio. O mais curioso dessa forte amizade é que ela começou, digamos, de maneira tardia. Josino tem 62 anos, três anos a menos que Tom, e são a amigos há “apenas” 14 anos. “Eu costumo brincar que essa era uma amizade que tava guardada. Um tava só esperando pelo outro”, brinca.

Simples, Tom Barros gosta de levar uma vida tranquila, próximo á família, e tem uma personalidade irreverente. Além de viver na mesma casa desde que nasceu, há mais de 20 anos tem o mesmo carro. Um bugre de cor branca. Tom tem outro carro, mais convencional, que usa para andar com os filhos, mas sempre que está só, não deixa de usar seu bom e velho bugre.

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