Descartes por Izaíra Silvino

Descartes Gadelha @ Por Edimar Soares

Descartes Gadelha @ Por Edimar Soares

“Ele é gênio. Gênio é aquela pessoa que não teve oportunidade de ter uma formação escolar, não teve a oportunidade de ter o conhecimento que a humanidade já tem sobre aquele assunto, mas recebeu pingos, gotas de conhecimento, e daquilo ele fez uma grandeza. Esse é um gênio: Descartes”. É dessa forma que a musicista e escritora, Izaíra Silvino, descreve Descartes Gadelha. E Izaíra tem convicção do que afirma. Além de ser amiga pessoal de Descartes, que inclusive é padrinho de sua filha, ela também conhece a fundo seu trabalho e já firmou muitos projetos em parceria com Descartes.

O menino de origem humilde, filho mais velho de uma família de nove irmão, e que aos 11 anos começou a trabalhar e entrou de cabeça no mundo das artes, hoje tem 69 anos e é conhecido como Mestre Descartes Gadelha. O titulo que recebe não vem de sua escolaridade, mas de sua genialidade. Descartes é um artista plástico conceituado, conhecido nacional e internacionalmente. Grande parte de suas obras se encontram no acervo do Museu de Arte da UFC (MAUC). Mas além de ser um exímio pintor, escultor e desenhista, ele também é um grande compositor e musicista. Descartes é um dos maiores incentivadores da cultura popular carnavalesca, se envolvendo, todos os anos, na produção e criação de batuques de maracatu, enredo e bateria de escolas de samba e grupos percussivos da nossa capital.

Apenas a trajetória de Descartes nas artes plásticas e na musica já conseguem impressionar qualquer um que conhece um pouco da obra do artista, porém, para Descartes ainda não é o suficiente. Ele nunca para, está sempre envolvido em novos projetos e segue sempre buscando novas formas de expressar sua arte. A prova disso é o livro infantil “Lenda Estrela Brilhante”, lançado por ele, em 2011.

Entre os anos de 1981 a 1989, Izaíra Silvino foi regente do Coral da Universidade Federal do Ceará, e durante parte desse período teve a oportunidade de ter Descartes como um dos integrantes do coral. De acordo com a própria Izaíra, ele foi o melhor baixo que ela já teve, devido a sua voz grava e bela, e, além disso, era extremamente criativo. Tão criativo que chegava a causar problemas. “Como cantor do coro, ele dava trabalho, porque ele aprendia a peça, mas na hora de cantar ele criava outra, porque ele era muito criativo”, lembra Izaíra. Mais do que criativo, podemos considerar Descartes um artista completo. Multifacetado, inquieto, está sempre em processo criativo, trabalhando em uma nova obra, ou se dedicando a um novo projeto. Mesmo depois de ter sido diagnosticado com câncer de próstata, ele nunca parou de produzir, apenas das recomendações medicas de reduzir os esforços no trabalho. Hoje, cerca de dez anos depois do seu primeiro diagnostico, Descarte segue lutando contra o câncer. A doença se espalhou ao longo do tempo, subindo pelo intestino e pulmão. Por causa disso, o artista cearense já passou por vários procedimentos cirúrgicos, além do intenso tratamento de quimioterapia. Atualmente, de acordo com os diagnósticos médicos, Descarte se encontra em estado de câncer terminal, porém é incrível a forma com que ele lida com esse assunto, chegando a fazer piada quando a morte é o assunto.

“Dizem que ele é paciente terminal de câncer, mas pra mim – pela forma que eu olho pra ele, pela forma que ele olha pra vida – não é. Ele me fala assim: “minha comadre, tá aqui eu (sic), enganando a morte. Ela chega por um lado e eu saio pelo outro”. Só o Descartes trata a morte dessa forma, com esse humor. Esse é o Descartes!”, conta Izaíra Silvino.

O autor de quase todos os samba enredos das escolas de samba e dos batuques de maracatu da cidade de Fortaleza, responsável pelo maracatu solar, construtor de instrumentos musicais, nautimodelista, criador de grandes exposições, como “Catadores do Janguruçu”, “Canindé: Canaã Nordestina. Um espetáculo de Fé” e “Iracemas, Morenos e Coca-Colas”, é um autodidata, que cresceu seguindo a tradição musical de sua família (seu avô materno era carnavalesco e musico, e sua mãe tocava biolão e bandolim) e nunca frequentou nenhum curso voltado para á musica ou para ás artes plásticas. Na verdade, Descartes, que é um dos maiores representantes da nossa cultura, sequer se considera um artista. Diz que está é uma palavra muito pomposa, distante da sua realidade simples.

Descartes Gadelha pode ser modesto, mas seu mérito é indiscutível. A forma com que ele reproduz a vida do nordestino em suas obras, a intensidade com que ele se entrega aos projetos e a quantidade de obras que produz quando está submerso no mundo que deseja retratar (Descartes já chegou a produzir 64 quadros em três dias, enquanto esteve em Canindé retratando a realidade dos romeiros e dos devotos de São Francisco), o tornaram merecedor de reconhecimento e admiração. “Ele é um artista que pinta o imaginário, a dor, a sorte, o destino, a grandeza do povo do Ceará, do povo nordestino. […] A obra dele é bela, é forte, é encantadora, é sedutora, mas fala do dia a dia. Ele é um artista que expressa a vida cotidiana do subúrbio”, explica Izaíra. De acordo com ela, estas obras deveriam ser usadas no momento de construção da formação educacional dos cearenses. As obras de Descartes “deveriam estar em todos os museus, em todas as casas […] Mas os projetos de educação não contemplam isso. Ainda! […] Com toda certeza, nosso povo terá a consciência de exigir isso do educador, e nessa hora o Descartes vai ser mais conhecido”.

Sobre Izaíra Silvino

Maria Izaíra Silvino Moraes nasceu na cidade de Baturité, no Ceará, em 1945. É compositora, arranjadora, poeta, bandolinista, violinista e animadora cultural. Sua formação acadêmica é composta por um bacharelado em ciências jurídicas e sociais, licenciatura em música pelo Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, especialização em música do século XX e mestrado em educação. Izaíra integrou orquestras, grupos de música popular e foi regente de vários dos principais corais da cidade, como o Coral da Universidade Federal do Ceará (1981-1989). Desde 2007, integra a direção da DIZ Editor(A)cão e Produção Cultural. É casada a mais de trinta anos com Didi Moraes e mãe de dois filhos, Davi Silvino Moraes e Isabel Virgínia Silvino Moraes.

Conheceu Descartes Gadelha na adolescência, em 1965, em um grupo focal musical e desde então os dois tornaram-se amigos. Trabalharam juntos em diversos projetos. Primeiro, em um projeto de maracatu, enquanto Izaíra realizava uma pesquisa sobre a história carnavalesca do Ceará. Neste caso, Descartes era a figura pesquisada, devido ao seu envolvimento com o maracatu. Em seguida, Descartes fez parte do coro regido por Izaíra, no Coral da UFC. Mais tarde, Descartes se tornaria integrante de um grupo de chorinho do qual Davi Moraes, marido de Izaíra, tocava.

Um dos projetos em que os dois trabalharam juntos e que merece um destaque especial, foi a criação do projeto da primeira opera cearense, há cerca de 30 anos atrás, ideia que surgiu do cantor lírico cearense, Paulo Abel do Nascimento (1955-1992). Apesar dos grandes projetos em que essa dupla se envolveu, a amizade vai além da vida profissional. Descartes é o padrinho da filha de Izaíra, Isabel Virgínia, e foi ele quem desenhou e contratou uma costureira para fazer o vestido do aniversario do primeiro ano de vida de Isabel, presente este que marcou a memória de Izaíra.

Escrito por Rebeca Marinho e Soraya Farias.

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